terça-feira, agosto 25, 2015

Noções básicas de História da Civilização

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- Do alto daquele escadote, prá-i uns cem mil anos nos contemplam, Quim!

domingo, agosto 09, 2015

A Razão de Barro, o Progresso de Ferro e o Syriza



Desconfio que já pouca gente conhece a fábula da Panela de Barro e da Panela de Ferro.
Foi contada pela primeira vez, julgo eu, por La Fontaine no século XVII, e traduzida para português, pelo Padre Nascimento que nessas coisas de letras assinava Filinto Elísio.
A história é simples, a panela de barro não queria ir passear porque receava qualquer percalço:
"- Iria com prazer", explica ela na versão de Filinto Elísio, "mas sou tão delicada, que se acaso num seixo ou tronco esbarro, lá fico esmigalhada."
Mas a panela de ferro garante:
"- Se é só por isso, podes ir comigo; é medo exagerado o teu - contudo, se houver qualquer perigo,  serei o teu escudo."
A panela de barro lá se deixou convencer e partiram as duas, lado a lado, num agradável passeio pelos campos. 
Como era, talvez, de esperar, "numa vereda estreita, eis que se tocam - e a de barro é feita, coitada, em mil pedaços!"
E lá vem a moral da história, porque uma fábula é isso mesmo: um conto de proveito e exemplo:
"Para sócio não busques o mais forte", escreve Filinto Elísio, "que te arriscas de certo à mesma sorte!"
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Claro que já toda a gente se lembrou desta fábula a propósito da Alemanha e da Grécia e da sociedade em que entraram estes pequeninos países - o nosso incluído - julgando-se protegidos por aquelas nações muito avançadas, muito desenvolvidas, muito felizes.
Não eram esse desenvolvimento e essa felicidade uma forte e pesada panela de ferro que nos serviria para sempre de escudo? E não éramos nós, na nossa pequenez e na nossa fragilidade umas mínimas caçarolas de barro a precisar do generoso apoio dos grandes? Éramos.
Mas a generosidade é assim mesmo, quando acontece é muito bonita. Mas quem se fia na Virgem e não corre é burro.
Agora, pronto. Para aqui andamos a tentar juntar os "mil bocados" de que éramos feitos. Alguns perderam-se para sempre. Outros desfizeram-se em pó, como se o nosso barro antigo se estivesse a esboroar.
Não sabemos sequer se ainda acharemos cimento bastante no banco central europeu - ou, na pior das hipóteses, nas nossas alminhas tristes - para colar os cacos.
Mas esta é apenas uma das lições que a fábula nos pode ensinar. Afinal qualquer um pode encarnar a personagem «panela de barro» e achará com certeza inúmeras «panelas de ferro» que pode fazer suas.
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Voltemos à generosidade.
Afinal, o que aconteceu a essas nações, à Inglaterra, à Alemanha e, antes de todas, à França, pátrias do iluminismo, ansiosas por trazer ao Mundo a luz das suas civilizações? Não foram elas quem descobriu conceitos tão belos como o governo esclarecido, para o bem do povo, mesmo se exercido por um déspota? E os direitos naturais que viriam a resultar na Declaração dos Direitos, na fórmula simples e generosa que foi a divisa da França: a Liberdade, Igualdade e Fraternidade? O que aconteceu foi simples: apostaram numa coisa a que se chamou, provavelmente por falta de melhor termo, o progresso.
Compreende-se: toda a gente, e não é preciso nomear o Descartes nem os Enciclopedistas, toda a gente portanto, reconhecia que a Razão, essa capacidade que têm os humanos de estabelecer relações lógicas e assim chegar à causa das coisas, poderia igualmente tirar todas as consequências: passado, presente e futuro estavam escritos no Grande Livro da Natureza, com caracteres matemáticos, disse o Galileu.
Para resolver toda e qualquer questão, fossem problemas da fé e das religiões, fossem os da máquina a vapor, ou ainda os do bom governo dos povos, o simples encadeamento lógico das afirmações de que as matemáticas são um bom exemplo, seria bastante, mais cedo ou mais tarde, para chegar à verdade - e, consequentemente, ao Bem - porque o Bom, o Belo e o Verdadeiro andam de mãos dadas.
Foi o que se pensou durante muito tempo. Alguns como nós, mais ingénuos, diria eu, que também tivemos de tomar o nosso copinho de cicuta quando os senhores deste baixo mundo acordavam mal dispostos.
Havia, porém um problema que já Descartes apontara quando proferiu o seu penso, logo existo, "a única verdade talvez certa", no comentário ferino do Zé Fernandes em A Cidade e as Serras. 
É que a razão, com os seus princípios lógicos, com as suas regras todas elas bem estabelecidas, lida com juízos que são feitos de conceitos e encadea-los-á com toda a segurança. Mas só conduzirá à verdade se esses conceitos trouxerem já consigo também a verdade. Não é assim?
É um pouco como se tivéssemos aqui um par de cabazes, além outro par e concluíssemos que, sendo que três e dois são cinco, tínhamos no total cinco cabazes.
É verdade que três e dois são cinco. O que já não o é assim tanto é que uma das parcelas fosse «três cabazes». Mas, se tentares dizer que não, que só tens quatro cabazes, demonstram-te simpáticos, com muitas regras da álgebra, que dois mais três é mesmo cinco.
É essa a grande fragilidade da Razão.
Os informáticos conhecem-na bem e, quando nos ensinam a programar - ou, tão só a usar - os computadores, não se esquecem de nos avisar: «o que entra é o que sai». E, malcriadissimamente, acrescentam: «Se entra merda, sai merda».
É o mesmo com a Panela de barro.
Coze magnificamente, mas não tem a capacidade de escolher os ingredientes que lhe atiram lá para dentro.
Resultado: a sopa, a maior parte das vezes, acaba por sair uma porcaria. Pudera: o que lhe atiram lá para dentro é que o produz desenvolvimento, dinheiro, coisas úteis, prazeres, distracção... progresso, em suma.
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Não vale pena, portanto, quando vemos um noticiário na televisão a pena dizer que este mundo enlouqueceu, que atravessamos um período de irracionalidade ou que a Razão está morta.
Também no século XIX se proclamou «Deus morreu!» ou que «a religião é o ópio do povo». E se olharmos em volta, aí está a religião, mais viva do que nunca e com acessos de crueldade como sempre teve. E Deus, de tal maneira nos transcende, que continuamos a não poder afirmar com alguma dose de certeza que alguma vez existiu, quanto mais que morreu.
Com a Razão outro tanto se passa: para qualquer lado que se olhe, lá está ela: o produto que lhe encomendam chama-se, uma vezes ciência, outras tecnologia.

Parece que essas coisas são parte integrante, fundamental mesmo, do tal «progresso», mesmo quando se trata de tecnologias de morte, tão racionais como as bombas teleguiadas, os drones, as cadeiras eléctricas ou os fornos de Auschwitz.
À Razão propriamente dita, proíbem-lhe que se ocupe do bom governo dos povos, quer dizer: proíbem-na de questionar os seus próprios fundamentos.
Querem um exemplo?
Todos nós achamos que é racional que os automóveis modernos tenham cintos de segurança e tenham airbags. Muitas vidas se têm salvo quando ocorre um acidente a altas velocidades, não é verdade?
Mas não seria mais racional ainda que não se construíssem automóveis que atingem duzentos e muitos quilómetros hora, que exigem dispendiosas autoestradas onde não se pode passar dos cento e vinte?
Pois é: esqueçam essa treta de que a Razão morreu.
Está viva e bem viva: infelizmente está acorrentada à panela de ferro do progresso.
Como a esmagadora maioria de nós, não passa de uma escrava, mais uma entre tantos outros. Ou vá lá, para não nos esticarmos muito: foi domesticada e está ali amarrada à sua casota. Só tem direito de morder quem o dono considerar «intrusos».
O Syriza, por exemplo.

terça-feira, junho 23, 2015

OS DIAS DE CATARINA, hoje excepcionalmente, à noite

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Tenho uma relação péssima com a televisão.
Os comentadores irritam-me, grandemente porque nunca dizem nada de novo. Repetem, repetem, repetem. 
Os políticos, salvo aquelas excepções mesmo excepcionais, interrompem-se uns aos outros, tentam gritar ainda mais alto do que o opositor e repetem, repetem, repetem o discurso do caudilho mais caro aos seus ressequidos corações.
E eu, quando os oiço a debitar, a debitar, a debitar, zás! Mudo de canal.
Mas, helas! A maior parte das vezes os canais o que nos dão, quando não são casas dos segredos ou concursos idiotas, são crimes, violações, facadas, pancadaria de criar bicho.
Há dias, por um daqueles acasos que acontecem, calhou-me assistir ao rapto de uma menina de uns onze, doze anos, amarrada e pendurada pelos pulsos para a qual um energúmeno armado de facalhaz avançava cheio de más intenções: torturá-la até à morte, por exemplo. Graças a Deus e ao produtor da série, a bófia gentil apareceu aos tiros e salvou a menina.
Não sei se alguma das nossas filhas ou netas que acidentalmente tenha visto o episódio, conseguiu dormir nessa noite.
Resta procurar os programas infanto-juvenis. Mas, oops! 
Estão cheios de ninjas, uns que nos dizem serem os bons e que dão socos e pontapés na cara dos outros que, esses, são os maus: derrubam prédios de apartamentos com as as suas máquinas infernais, pisam os automóveis da civilização e vêm cheios de vontade de destruir o universo inteiro. 
E aqui há uns dias, num desses canais, por acaso o que costuma ser mais inofensivo, passou uma história em que, imagine-se, um juvenil toureiro, de estoque em punho, matava o seu toiro! Não assistíamos propriamente à execução do animal. Mas assistíamos ao risinho pimpão do toureirinho, orgulhoso do seu feito.
Pronto!
Resta a música clássica da Mezzo, pelo menos até à hora em que ela se transforma em jazz. Depois, olha, acabou-se. 
Que se há-de fazer? 

CATARINA: vestida para sair à rua.


segunda-feira, junho 01, 2015

Os dias de Catarina

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É capaz de haver demasiados «Esquinas» aí, por esse pobre país aí afora. Dizemos nós, claro ... mas, em calhando, até temos razão.

sábado, maio 16, 2015

BLASFÉMIA?


Recepção aos peregrinos.

terça-feira, maio 12, 2015

Alegados Judeus e alegados Arianos, uns gregos, outros alemães

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Durante a II Guerra Mundial, 46.000 cidadãos gregos, mulheres e homens, uns já velhos e outros ainda crianças, alegadamente judeus (mas podiam ser qualquer outra coisa, ciganos, comunistas, intelectuais, sabe Deus o quê), foram enviados para os campos de extermínio de Auschwitz - Birknau, na Polónia ocupada.
Só há uma coisa pior do que a maldade de que os humanos são capazes: a sua estupidez.
Não sei em qual das categorias devemos classificar a política financeira dos alemães de hoje.

Reler Eça



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«Elle, velho, que lhe fallava, trabalhára cincoenta annos a gleba, tivera o corpo vincado pelos azorragues, vira a sua choupana queimada pelo Senhor : em torno d'elle, longos tempos, seus filhos tinham gritado de fome, tremendo de frio, - e, escorraçado, esmagado, pisado, expremido pela força como um trapo vil, tomara uma faca e partira a fazer justiça no mundo.»
Eça de Queiroz, Ultimas Paginas, S. Christovam. Porto, Lello & Irmão, Lisboa, Aillaud & Lellos. 5ª edição, s. d., p. 149.

domingo, março 22, 2015

Queirozianos

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"Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est."
Portugal existe?

quinta-feira, janeiro 15, 2015

O Portugal, Caramba! gosta do CHARLIE HEBDO


E detesta fanatismos!

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Ando há muitos dias com este post atravessado. Desde o dia 7, mais exactamente, dia em que um par de energúmenos entrou a matar pela redação do Charlie Hebdo e deu cabo de doze pessoas que estavam a fazer o seu trabalho e não tinham elas-próprias morto ninguém. Não é, dir-se-ia, bonito chamar energúmenos a dois indivíduos que se julgavam mandatados por Deus para fazer o que fizeram, mas para mim é o mesmo: mataram. Não tentaram redimir. Não tentaram convencer os jornalistas das razões que ali os traziam, não lhes mostraram o mal que estava a ser feito nem lhes apontaram um caminho mais justo. 
Vejamos!
Eu sei que o Portugal, caramba! não é o blog mais lido no mundo inteiro, nem sequer aqui da freguesia. Para quê, então perder tempo com platónicas declarações disto ou daquilo, se ninguém aqui vier?
Mas não é isso que me importa. O que me importa é que eu próprio o diga o que acho que tenho a dizer. Pode não vir cá mais ninguém, mas venho eu, não já com o entusiasmo com que dantes soía porque muita coisa de fazer perder a paciência a um Santo aconteceu nos oito anos que o Portugal, caramba! já leva.
Por exemplo, apareceu com um impúdico estrondo o facebook.
Não se limitou a impor um novo conceito de amizade que nos vai obrigar, um dia destes, a inventar uma palavra nova para os amigos mesmo, aqueles cuja falta sentimos quando se vão embora e que nos alegram mesmo quando voltam. E não foi só isso: o facebook também se tem vindo a apropriar dos nossos minutos livres, e, pior, do direito de criar banalidades, às vezes a partir de coisas que mereciam o nosso real empenhamento.
Mas mais! O próprio mundo tem vindo a mudar.
Nestes poucos anos, o 43º presidente dos Estados Unidos, um tal George W. Bush, foi-se embora, depois de ter inventado um Eixo do Mal lá onde lhe convinha e cortado nos impostos dos ricos.
A seguir veio o Obama, o primeiro presidente norte-americano com uma costela africana (deve ter trazido com ele das Áfricas um tal Passos Coelho - não há outra explicação - e mandou-o para cá, não sei se por causa da base das Lages ou por outra vingança qualquer).
Os States, com a sua habitual teimosia e a mania de fazer tudo à bruta, perderam mais uma guerra, que o proficiente Bush tinha arranjado no Afeganistão e a seguir, depois de enforcarem o Saddam, perderam também a do Iraque.
Vieram-se embora, por causa da «crise do subprime» e porque uma data de bancos se tinha afundado. Como não se pode cavar na vinha e no bacelo e a economia americana não dava para resgatar a banca e, ao mesmo tempo, compor a trapalhada que se tinha arranjado lá pelo Médio Oriente, os marines foram sendo substituídos pelos drones e o combate ao Eixo do Mal teve de continuar com assassínios selectivos.
Para espanto, pelo menos dos que ainda se lembram de que o responsável pelos campos de extermínio nazis, o Obergruppenfurer Eichmann, teve direito a um julgamento com advogado de defesa e foi condenado por um verdadeiro tribunal, Osama Bin Laden nem sequer foi trazido para uma prisão e julgado, mesmo se sumariamente. Bin Laden, foi simplesmente abatido. E percebemos que era o que se fazia quando era demasiado incómodo trazer um suposto terrorista assim para uma qualquer Guantánamo, ao menos para se averiguar se era ele mesmo quem se julgava que era. E que, se fosse preciso torturar um preso havia mais de mil recursos que a carta das Nações Unidas se tinha esquecido de discriminar: afogá-lo repetidamente, por exemplo, como no antigo suplício da «estrapada». Ou então abandoná-lo à polícia secreta de algum país amigo que não se submeta a escrutínios democráticos...
E os meninos que estavam refugiados numa escola das Nações Unidas com os seus pais e avós e foram atingidos por um míssil que visava um suposto dirigente do Hamas, também não foram acusados de nada, nem foram presos, nem lhes leram os direitos porque decerto não os tinham: foram feitos logo em estilhas, não passaram de casualities, que é como quem diz, com um encolher de ombros, que foram danos colaterais.
Obama tinha prometido fechar a prisão de Guantánamo. Não fechou, como não fecharam as off-shores onde os traficantes de armas ou de cocaína guardam os seus fundos de maneio e de onde enviam as massas com que se compram vistos gold e mansões em Vila Moura... ah, e onde os gestores que afundaram as Exon e as Lehman  Brothers, para não falar de exemplos aqui mais à mão, guardam umas pequenas poupanças por outras...
Mas adiante.
Além de falar demais, tenho outro defeito. Julgo que se chama irreverência.
Não atribuo muita importância aos grande nomes, aqueles que se tem de escrever com letra maiúscula: Pátria, por exemplo. Presidente da República! A Igreja Católica, a Anglicana, o Islão, etc. Eu só respeito gente. Ao meu vizinho, nascido aqui na terra e, portanto, meu compatriota, a esse sim, eu respeito-o.
Ao Dr. Jorge Sampaio também e às gentes, certamente católicas, que vão ali à festa da Capelinha para angariarmos uns euros para umas obras mais urgentes. Há também um casal, Testemunhas de Jeová, julgo eu, que me vêm bater ali ao portão de vez em quando e com quem converso sempre um bocadinho sobre coisas várias, o saber e a fé, um pouco de Santo Agostinho, o que vier à baila. São pessoas cordiais, mostraram sempre respeito por mim, pelos meus cães, pelas árvores, em suma, pela Criação. E eu, que posso fazer senão trata-los com igual respeito?
Se fossem budistas, islamitas ou judeus, o critério seria sempre o mesmo.
Não, não é de borla o meu respeito: paga-se com respeito. Não foi uma aprendizagem fácil, tem-me demorado a vida toda, mas sei exactamente como começou.
Não sei se alguma vez conheceram um bombista, mas um bombista a sério, daqueles que levavam uma bomba debaixo do surrão, lhe acendiam a mecha e a atiravam para o meio da multidão. Eu conheci um.
Como normalmente era feita de pólvora própria para fazer fogo de artifício, ou da que se vendia para carregar os cartuchos de caça, a bomba ardia mais do que rebentava, estragava umas saias às senhoras e assustava os cavalos. O odiado bombista era preso, ia dar com os ossos no Aljube até ser deportado para Timor. Quando se acabaram os bombistas, uns deportados para aqui outros para ali, o Estado Novo pôde continuar na santa paz do Senhor.  
O meu bombista era desses.
Quando voltou do exílio, anos depois, o país estava dominado pela Legião e pela Pide, com o apoio firme de uns quantos generais e da enorme maioria de sargentos que lutavam por conseguir uma casita no Bairro Social da Ajuda.
Sem direito a voto, já sem correligionários, o meu bombista voltou para a terra, casou-se, criou os filhos e os netos, mas nunca se resignou.
Era carpinteiro, passámos muitas tardes, o meu irmão e eu, a vê-lo trabalhar na oficina e ouvir histórias antigas.
Um dia, não sei já como começou a conversa, mas também pouco importa, com ele todas as conversas iam parar à política que ele nos explicava com abundantes metáforas, poemas inteiros do Antero de Quental, ditos populares de pouco rigor, disse-nos que tinha sido anarquista.
E falou nos primeiros tempos da República, no Buíça e no Costa,  no Carlos, no Luís Filipe (ele nunca usava o honorífico «Dom») nos atentados e nas bombas: era essa a sua grande mágoa, o seu grande arrependimento a conclusão a que chegara:
«Porque isso, não há direito! Não eram bichos ruins, tinha era que se dizer que estavam a fazer mal, não era matar ninguém, nem a Maria Antonieta que era uma cabra!»
E é isso o que, passados estes anos todos de «aprende-desaprende» e «volta a aprender», acho que deve ser dito:
O Cabu, o Charb, o Wolinski, o Tignous e as outras vítimas do massacre na sede do Charlie Hebdo, como de todos os outros massacres, não eram bichos ruins. Eram gente, como eram gente os meninos na escola da ONU na faixa de Gaza, como eram os judeus exterminados em Trblinka, como sou eu e como somos todos, míseras criaturinhas de Deus.
Ponto final.
 

quarta-feira, dezembro 31, 2014

As Figuras do Ano: os reis eméritos de Espanha e de Portugal

He-he-he...

Ando há que tempos à espera de que essa mania de escolher a figura do ano, a cada ano passa, passe ela-própria de moda como costumam passar, mais ano, menos ano todas as figuras do ano. Complicado? Nem por isso.
Desta vez a sorte quase universal coube ao Cristiano Ronaldo. Não houve cão nem gato que não inchasse um nadinha o papo para reconhecer que o futebolista do Real Madrid era a personalidade incontornável, e tal e coisa.
Não é o meu caso, que nem sequer me dou ao trabalho de detestar o futebol. Quero que ele vá dar uma volta e que volte o mais tarde possível porque ainda me lembro do Euro 2004 e das vuvuzelas.
Não, mesmo sem gostarmos dessa mania, aqui no Portugal, Caramba! decidimos que não podíamos ficar atrás de ninguém e escolhemos, não uma, mas duas «figuras do ano». E, como somos exagerados, não hesitariamos em dizer mesmo «figurões do ano» se não temêssemos que os nossos leitores o achassem assim tipo, pejorativo. 
São eles Juan Carlos de Bourbon e Ricardo Espírito-Santo Silva Salgado. 
D. Juan Carlos, lembram-se, dizia-se que era o Rei  de Espanha, mas, em calhando era só ali de Castela e não muito mais: sabe-se lá o que pensavam dele os Catalães ou os Bascos, por exemplo. Mas adiante - D. Juan Carlos, portanto, farto da sua real pasmaceira, um dia, pimba! Deu cabo do canastro a um velho e enorme elefante que, provavelmente, gozava os seus idosos dias e uma merecida reforma algures numa reserva daquelas que, atroz eufemismo, se dizem "de vida selvagem".
Perguntarão: eufemismo porquê?
Ora, porque, por muito reservada que seja a reserva, há sempre um dia em que uma vida selvagem  lá consegue entrar com uma carabina Mannlicher nas unhas e zás! Elefante para o caraças.
Pobre rei. Se já não era muito amado, já não digo pela raínha Sofia, mas ao menos pelo povo leitor da Holla, o assassínio do velho elefante foi o golpe final.
Juan Carlos dignamente (ou não) abdicou.
Isto, como toda agente sabe, foi em Espanha.
Em Portugal também havia um rei.
D. Ricardo I, soberano disto tudo e, quem sabe se pretendente ao trono de Angola, tanto quanto é do conhecimento público, não matou o seu elefante. Aliás, tinha uma enorme manada deles, quase todos brancos. Quando já não conseguia mantê-los disciplinadamente a fazer habilidades no circo, consta que os terá largado na loja de porcelanas a que chamamos «a banca». (1)
E abdicou também.
Em Espanha havia um herdeiro, Filipe de seu nome que passou pelas Cortes e ficou bem no exame. Havia outra herdeira, mas, infelizmente, do sexo feminino. Em Espanha pode-se ser discriminada por muita coisa, por exemplo, por ser partidário da autodeterminação do seu cantãozinho natal. Ou então, por ser mulher. A pobre princesa teve menos sorte do que a cunhada D. Letícia que era plebeia e chegou onde chegou.
Mas o que é que isto interessa? Nada.
Mas, dado que Sua Majestade El-rei D. Ricardo I também abdicou, e estes lugares não costumam ficar vagos por muito tempo, seria, talvez, engraçado que o príncipe herdeiro, chame-se ele José Maria ou qualquer outra coisa, passasse ali pela Assembleia da República a receber a vénia dos deputadecos que por lá estivessem.
Ao menos ficávamos a saber a quem irão, a partir de agora, prestar vassalagem os nossos representantes.
Era fixe, não era?
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(1)  Ainda andam por lá a varrer os cacos. Mas do que já se vai percebendo, a «loja das porcelanas» afinal o que tinha por lá mais era umas canecas tipo manhosas, importadas de Singapura ou de quaisquer outros sítios desses. 

domingo, dezembro 28, 2014

FELIZ ANO NOVO, Ó GENTE BOA! (E má também, que remédio...)

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O Portugal, Caramba! deseja-vos um Ano Novo tão bom como o que o Sr. Passos Coelho pintou no seu discurso de Natal.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Os Maias e as suas personagens


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Estou em crer que Os Maias é uma história muito simples, feita de simetrias reveladoras.
Querem ver?
Por exemplo:
Gastão de Gouvarinho, ministro de coisas incertas, que achava que Luanda só precisava de um pequeno aperfeiçoamento, um teatro lírico onde a gente bem vestida e civilizada fosse repousar os cansaços de colonizadores, era casado com Teresa Thompson que o trai com Carlos da Maia porque o Carlos da Maia é um «dandy», uma forma superior de ser português que só se adquire depois de passear por Paris, Berlim, Londres.
Esse mesmo Carlos, por sua vez também a trai com a Maria Eduarda, a qual é também uma «dandy» "três chic", como diz o Craft, e, também ela com o inconfundível toque parisiense.
A Maria Eduarda, porém, apesar de companheira do brasileiro Castro Gomes, era já cortejada pelo invejoso e vingativo Dâmaso Salcede, personagem cuja patetice vai sendo sobejamente sublinhada por toda a gente. E tudo acaba em mal, por causado de «Mr. de Guimarães», o afrancesado revolucionário que revela o chegado parentesco dos dois amantes - afinal os «dandys» eram irmãos.
E enfim, quem é que triunfa nesta enredada comédia de enganos?
Não é a pobre Thompson que julgou ver em Carlos o homem diferente, médico num país de bacharéis em Direito e de amanuenses, com um perfume de civilização e de cultura e, pobre dela, acaba desenganada.
Também não é a abusada Maria Eduarda, criada ao Deus dará entre gente reles e  que julgou ver a redenção ali mesmo, numa casinha nos Olivais onde o amante a ia visitar.
Nem Carlos, cuja carreira de médico e de investigador se perdeu entre namoros e jantaradas.
Quem ganha, quem ganha sempre neste país ingovernável, são os Gouvarinhos que fazem carreira em políticas de «sabe Deus», chegam a ministros e jantam com a banca.
E, como que para garantir a simetria, ganha o Dâmaso, claro. Não se pense que, por ter sido humilhado e escarnecido, não teve a sua vingança de pretendente desprezado: em Eça, nada é tão simples como aparenta. 
O poeta Alencar é a imagem viva do pai de Maria Eduarda e de Carlos.
E o revolucionário Mr. de Guimarães, é, pela antítese, a imagem em negativo do inútil e pomposo Dâmaso. E, para que nós, leitores, não nos enganemos Eça não se esquece de sublinhar que o afrancesado portador das más novas, afinal, é um tio do Dâmaso.
Uma história muito simples, como se vê.
 
 










segunda-feira, outubro 06, 2014

Parabéns para nós ...

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O Portugal, Caramba! faz hoje oito anos.
Há tanto tempo por aqui,
e para quê?
Boa pergunta.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Viagens com o Manuel António XI [O símio ciumento]


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Entrecampos
M. A. Pina, «A poesia vai», ibid., p. 38
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Andou perdida com um livro nos braços.
O livro sobreviveu,
mas agora, de versos enlouquecidos.
 
 
 


quinta-feira, setembro 04, 2014

Viagens com o Manuel António X [Uma a uma, todas as luzes]

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No Apeadeiro
M. A. Pina, «Cuidados intensivos»,
Todas as palavras, p. 190

terça-feira, agosto 19, 2014

Viagens com o Manuel António IX [Rappelle-toi Babara]

 
Sabugo
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"Rappelle-toi Barbara,
Il pleuvait sans cesse ce jour-là sur Brest.»
Jacques Prévert, «Barbara», Paroles.
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M. A. Pina, «Como se desenha uma casa», Todas as palavras., p. 347

sexta-feira, agosto 08, 2014

Que fazem os bancos?

Ainda alguém me há-de explicar o que raio faz um banco.
Não estou a perguntar nem quem é que os faz, nem o que acontece aos seus balcões. Vai-se lá, assinam-se uns papéis, usam-se os cartões de crédito ou de débito e por aí fora. Lá que têm alguma utilidade, parece-me óbvio. Eles, por seu lado agarram nos nossos ordenados, numas poupanças ou outras e investem tudo isso
Mas produzem o quê? O que é que eles fazem realmente?
Reparem:
Desde miúdo que me habituei a ver o Sr. António da Ponte, carpinteiro de moínhos de profissão, pregar pregos, aplainar, serrar, brocar. Via-se as coisas que saíam das mãos dele. Uma forquilha para virar a palha dos cereais, um alqueire, uma roda de carroça reparada...
Também o Victor era carpinteiro ou marceneiro, talvez. Nunca soube o apelido que usava, mas era catequista e foi o meu padrinho de crisma. Trabalhava na serração do Pio e fez-nos, ao Zezé Abrantes, ao meu irmão e mim uma belas espadas de pau.
Ainda conservo a minha, quase, quase intacta.
Outros cavavam as vinhas, podavam, faziam as vindimas. As adegas eram uma roda viva, baldes de uva a caminho dos tonéis, mosto a fermentar, os carros de bois para trás e para diante.
E havia os tanoeiros, os ferradores, o António da Loja e o João da Carolina que tinha uma fabriquinha minúscula onde se fazia pirolitos e laranjadas...
Foi mais ou menos assim, entre a aldeia das férias e a vila dos tempos da escola, que o meu mundo começou.
Não tenho bem a noção de quando me apercebi de que A ilha de coral, O cavalo preto, e os Dois anos de férias, além dos tipógrafos da Tipografia União, por exemplo, que os imprimiam, e do Sr . Aspra onde os íamos comprar, tinham de ter um autor (1).
Quer dizer, tinha de haver alguém que, sem «fazer» os livros propriamente ditos, os fazia, não era só a Balada da Neve e Os passarinhos tão engraçados que tinham de ter sido escritos. As poesias não eram excepção.
Acho que foi um salto qualitativo nessa coisa de entender o mundo onde eu vivia.
Havia pessoas que trabalhavam, escreviam histórias fascinantes, mas depois não eram elas que faziam os livros.
Eu via que maior parte das pessoas que trabalhavam faziam «coisas»: a nossa Mãe fazia o comer, a Avó levantava-se tarde - era um nadinha preguiçosa, há que dizê-lo - mas tinha as suas tarefas: dava corda aos relógios, de comer ao gato e às galinhas, apanhava salsa e uma ou outra flor para enfeitar as jarras e depois sentava-se a tricotar camisolas ou a fazer crochet.
Os livros era diferente.
E depois comecei a reparar que as aulas e ser professor também.
Havia «coisas» que tinham de ser feitas, mas que eram como que invisíveis: podia-se ler um livro, mas as letras tinham sido lá postas pelo tipógrafo; podia-se dar uma aula, mas se nenhum de nós aprendesse coisa nenhuma, que «coisa» é que ficava «feita»?
Confesso que é uma questão que ainda me deixa algo confuso, sobretudo agora, com esta história do Banco Espírito Santo,  pela enésima vez: 
Que «coisa», mesmo invisível, é que os bancos «fazem»?
Alguém me sabe dizer?
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(1) Claro que eu sabia que o Sr. Janeiro Acabado, que tinha feito a cartilha por onde me ensinaram a ler, era o seu autor. Mas, o que isso significava tinha ficado soterrado, penso eu agora, no engraçadíssimo que era um Sr. professor de todo o respeito chamar-se assim.

segunda-feira, agosto 04, 2014

quarta-feira, julho 16, 2014

Viagens com o Manuel António VIII [Debaixo da Tília]

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Pêro Negro e outras
Walther von der Vogelweide, «Under der Linden»
M. A. Pina,  idem, «O nome do cão»
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Debaixo da tília,
sobre as urzes
onde nós dois tínhamos o nosso leito,
aí jaz o jovem Werther,
lado a lado com o nosso cão
quando partiu em busca do seu nome,
o verdadeiro nome que os cães têm
e nós não sabemos adivinhar.
A Tia Olívia disse:
é assim a vida...

sábado, julho 12, 2014

Viagens com o Manuel António VII [O que se repete]

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Mafra
«Scienza Nuova», Ibid., p. 21
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terça-feira, julho 01, 2014

Viagens com o Manuel António VI [Fontes geralmente inconformadas]

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Pero Negro
Ibid., «Segundo Fontes geralmente bem», p. 48

segunda-feira, junho 30, 2014

Viagens com o Manuel António V [Um dia destes, zás!]


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Mira-Sintra
Ibid., «Um dia destes, zás!, morro!», p. 42 

sábado, junho 21, 2014

Viagens com o Manuel António IV [A pura luz pensante]


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Ibid., «A pura luz pensante», p. 67

segunda-feira, junho 16, 2014

Viagens com o Manuel António [Esplanada e Outro]

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Pero Negro
Ibid., «Esplanada», p. 155 e
«Na hora do silêncio supremo», p. 62

quinta-feira, junho 12, 2014

Viagens com o Manuel Atónio II [A Porta Estreita]

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«Pedra Furada»
Ibid., «A Porta Estreita», p. 80

quarta-feira, maio 28, 2014

Viagens com o Manuel António I [Os intrusos]

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"À chegada".
Todas as palavras, p. 109, "O intruso".

quarta-feira, abril 23, 2014

TURBAMULTA

 
 
Tome-se um ponto de vista ao acaso, uma cadeira de plástico hospitalar, por exemplo, de frente para a fila de espera e é quase fácil imaginar 
que aquele ali bate na mulher, e a mulher a quem ele bate é como aquela além, de ar amargurado, a quem ninguém respeita,
nem já os filhos, quando tiver netos pior será, tornada transparente como um móvel que só estorva, em que se tropeça,
por enquanto diz-se «mãe, mãe, não há leite» ou «não compraste cerveja, nesta casa nunca há nada...»
e ela vinga-se num marido tetraplégico
como aquele outro encostado além, impotente na sua cadeira de rodas por causa da escavadora ébria e do seguro que apodrece nas prateleiras do tribunal cível
e vai-se por aí fora, a cada um o seu vício, a sua mesquinhez, a sua crueldade,
distância, mesmo sem razão para os detestar, distância,
de muito muito longe já nem parecem gentes,
vistos lá em baixo no passeio, são o carreiro de formigas, pontinhos pretos sem ego, como dizia o Harry Lime (e o Graham Green)
"Look down there. Tell me. Would you really feel any pity if one of this dots stopped moving forever?"
E os pontinhos apertam-se além, no cais à espera do metro e depois, na carruagem, todos de olhos baixos, corpo contra corpo, são gentalha,
ao pé, mesmo ao pé, tudo se complica,
quando os víamos como multidão, comungávamos porque éramos nós e é o povo em marcha «os ricos que paguem a crise» e somos campeões,
ou enraivece, são eles, os comunas, os lagartos, os lampiões, a turba desordeira
«vai trabalhar, cabrão!»
ah, mas  depois vem um senhor, diz «com licença» e chama a senhora, ainda bonita, modestamente vestida como ele, «senta-te aqui», «não, senta-te tu», «não, vá, que eu já me sento ali adiante»
e dás contigo de pé, feito parvo, e ouvires-te dizer, «não, não, sente-se, sente-se, eu estava mesmo a ir lá fora ao bar beber um café...»
"Would you feel any pity", se eles ainda fossem pontinhos, lá longe?
 Sim, gaita. Sim, mesmo se personagens de ficções.
Cá fora, entre ti e o bar, atravessa-se uma réstia de Sol.

terça-feira, abril 01, 2014

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

quarta-feira, janeiro 29, 2014

sábado, janeiro 04, 2014