terça-feira, Agosto 19, 2014

Viagens com o Manuel António IX [Rappelle-toi Babara]

 
Sabugo
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"Rappelle-toi Barbara,
Il pleuvait sans cesse ce jour-là sur Brest.»
Jacques Prévert, «Barbara», Paroles.
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M. A. Pina, «Como se desenha uma casa», Todas as palavras., p. 347

sexta-feira, Agosto 08, 2014

Que fazem os bancos?

Ainda alguém me há-de explicar o que raio faz um banco.
Não estou a perguntar nem quem é que os faz, nem o que acontece aos seus balcões. Vai-se lá, assinam-se uns papéis, usam-se os cartões de crédito ou de débito e por aí fora. Lá que têm alguma utilidade, parece-me óbvio. Eles, por seu lado agarram nos nossos ordenados, numas poupanças ou outras e investem tudo isso
Mas produzem o quê? O que é que eles fazem realmente?
Reparem:
Desde miúdo que me habituei a ver o Sr. António da Ponte, carpinteiro de moínhos de profissão, pregar pregos, aplainar, serrar, brocar. Via-se as coisas que saíam das mãos dele. Uma forquilha para virar a palha dos cereais, um alqueire, uma roda de carroça reparada...
Também o Victor era carpinteiro ou marceneiro, talvez. Nunca soube o apelido que usava, mas era catequista e foi o meu padrinho de crisma. Trabalhava na serração do Pio e fez-nos, ao Zezé Abrantes, ao meu irmão e mim uma belas espadas de pau.
Ainda conservo a minha, quase, quase intacta.
Outros cavavam as vinhas, podavam, faziam as vindimas. As adegas eram uma roda viva, baldes de uva a caminho dos tonéis, mosto a fermentar, os carros de bois para trás e para diante.
E havia os tanoeiros, os ferradores, o António da Loja e o João da Carolina que tinha uma fabriquinha minúscula onde se fazia pirolitos e laranjadas...
Foi mais ou menos assim, entre a aldeia das férias e a vila dos tempos da escola, que o meu mundo começou.
Não tenho bem a noção de quando me apercebi de que A ilha de coral, O cavalo preto, e os Dois anos de férias, além dos tipógrafos da Tipografia União, por exemplo, que os imprimiam, e do Sr . Aspra onde os íamos comprar, tinham de ter um autor (1).
Quer dizer, tinha de haver alguém que, sem «fazer» os livros propriamente ditos, os fazia, não era só a Balada da Neve e Os passarinhos tão engraçados que tinham de ter sido escritos. As poesias não eram excepção.
Acho que foi um salto qualitativo nessa coisa de entender o mundo onde eu vivia.
Havia pessoas que trabalhavam, escreviam histórias fascinantes, mas depois não eram elas que faziam os livros.
Eu via que maior parte das pessoas que trabalhavam faziam «coisas»: a nossa Mãe fazia o comer, a Avó levantava-se tarde - era um nadinha preguiçosa, há que dizê-lo - mas tinha as suas tarefas: dava corda aos relógios, de comer ao gato e às galinhas, apanhava salsa e uma ou outra flor para enfeitar as jarras e depois sentava-se a tricotar camisolas ou a fazer crochet.
Os livros era diferente.
E depois comecei a reparar que as aulas e ser professor também.
Havia «coisas» que tinham de ser feitas, mas que eram como que invisíveis: podia-se ler um livro, mas as letras tinham sido lá postas pelo tipógrafo; podia-se dar uma aula, mas se nenhum de nós aprendesse coisa nenhuma, que «coisa» é que ficava «feita»?
Confesso que é uma questão que ainda me deixa algo confuso, sobretudo agora, com esta história do Banco Espírito Santo,  pela enésima vez: 
Que «coisa», mesmo invisível, é que os bancos «fazem»?
Alguém me sabe dizer?
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(1) Claro que eu sabia que o Sr. Janeiro Acabado, que tinha feito a cartilha por onde me ensinaram a ler, era o seu autor. Mas, o que isso significava tinha ficado soterrado, penso eu agora, no engraçadíssimo que era um Sr. professor de todo o respeito chamar-se assim.

segunda-feira, Agosto 04, 2014

quarta-feira, Julho 16, 2014

Viagens com o Manuel António VIII [Debaixo da Tília]

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Pêro Negro e outras
Walther von der Vogelweide, «Under der Linden»
M. A. Pina,  idem, «O nome do cão»
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Debaixo da tília,
sobre as urzes
onde nós dois tínhamos o nosso leito,
aí jaz o jovem Werther,
lado a lado com o nosso cão
quando partiu em busca do seu nome,
o verdadeiro nome que os cães têm
e nós não sabemos adivinhar.
A Tia Olívia disse:
é assim a vida...

sábado, Julho 12, 2014

Viagens com o Manuel António VII [O que se repete]

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Mafra
«Scienza Nuova», Ibid., p. 21
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terça-feira, Julho 01, 2014

Viagens com o Manuel António VI [Fontes geralmente inconformadas]

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Pero Negro
Ibid., «Segundo Fontes geralmente bem», p. 48

segunda-feira, Junho 30, 2014

Viagens com o Manuel António V [Um dia destes, zás!]


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Mira-Sintra
Ibid., «Um dia destes, zás!, morro!», p. 42 

sábado, Junho 21, 2014

Viagens com o Manuel António IV [A pura luz pensante]


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Ibid., «A pura luz pensante», p. 67

segunda-feira, Junho 16, 2014

Viagens com o Manuel António [Esplanada e Outro]

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Pero Negro
Ibid., «Esplanada», p. 155 e
«Na hora do silêncio supremo», p. 62

quinta-feira, Junho 12, 2014

Viagens com o Manuel Atónio II [A Porta Estreita]

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«Pedra Furada»
Ibid., «A Porta Estreita», p. 80

quarta-feira, Maio 28, 2014

Viagens com o Manuel António I [Os intrusos]

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"À chegada".
Todas as palavras, p. 109, "O intruso".

quarta-feira, Abril 23, 2014

TURBAMULTA

 
 
Tome-se um ponto de vista ao acaso, uma cadeira de plástico hospitalar, por exemplo, de frente para a fila de espera e é quase fácil imaginar 
que aquele ali bate na mulher, e a mulher a quem ele bate é como aquela além, de ar amargurado, a quem ninguém respeita,
nem já os filhos, quando tiver netos pior será, tornada transparente como um móvel que só estorva, em que se tropeça,
por enquanto diz-se «mãe, mãe, não há leite» ou «não compraste cerveja, nesta casa nunca há nada...»
e ela vinga-se num marido tetraplégico
como aquele outro encostado além, impotente na sua cadeira de rodas por causa da escavadora ébria e do seguro que apodrece nas prateleiras do tribunal cível
e vai-se por aí fora, a cada um o seu vício, a sua mesquinhez, a sua crueldade,
distância, mesmo sem razão para os detestar, distância,
de muito muito longe já nem parecem gentes,
vistos lá em baixo no passeio, são o carreiro de formigas, pontinhos pretos sem ego, como dizia o Harry Lime (e o Graham Green)
"Look down there. Tell me. Would you really feel any pity if one of this dots stopped moving forever?"
E os pontinhos apertam-se além, no cais à espera do metro e depois, na carruagem, todos de olhos baixos, corpo contra corpo, são gentalha,
ao pé, mesmo ao pé, tudo se complica,
quando os víamos como multidão, comungávamos porque éramos nós e é o povo em marcha «os ricos que paguem a crise» e somos campeões,
ou enraivece, são eles, os comunas, os lagartos, os lampiões, a turba desordeira
«vai trabalhar, cabrão!»
ah, mas  depois vem um senhor, diz «com licença» e chama a senhora, ainda bonita, modestamente vestida como ele, «senta-te aqui», «não, senta-te tu», «não, vá, que eu já me sento ali adiante»
e dás contigo de pé, feito parvo, e ouvires-te dizer, «não, não, sente-se, sente-se, eu estava mesmo a ir lá fora ao bar beber um café...»
"Would you feel any pity", se eles ainda fossem pontinhos, lá longe?
 Sim, gaita. Sim, mesmo se personagens de ficções.
Cá fora, entre ti e o bar, atravessa-se uma réstia de Sol.

terça-feira, Abril 01, 2014

segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

quarta-feira, Janeiro 29, 2014

sábado, Janeiro 04, 2014

segunda-feira, Dezembro 30, 2013

quarta-feira, Novembro 13, 2013

Diamanda Galas - Supplica A Mia Madre

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domingo, Novembro 10, 2013

domingo, Outubro 20, 2013

sexta-feira, Outubro 18, 2013

sábado, Outubro 12, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (quarto episódio)

Tanto tempo se passou desde que aqui vim pela última vez para estar com a minha Senhorinha que não sei já onde íamos, nem onde, no episódio anterior, deixámos o seu Primo Carlinhos.
Quando digo «aqui», os Leitores já habituados sabem que me refiro à pequenina loja de fotocópias e informática da D. Fernanda. É sentado a esta mesa virada para a parede, com um teclado e um ecrã, que eu, a troco de uns dois ou três euritos, conforme vou arranjando, comunico com os meus Leitores. E sei que, ao tal ecrã onde as palavras que escrevo vão aparecendo, eu devia, para ser entendido, dar o verdadeiro nome que é o «monitor» se, por acaso, esse nome não tivesse sido dado já a tantas outras coisas tão diferentes.
E depois, vá-se lá saber de qual é que se está a falar. 
- Temos de prestar mais atenção ao contexto - diz-me tantas vezes a minha Senhorinha - Dois mais dois são sempre quatro, estejamos nós onde estivermos.
- Excepto quando eu estou lá atrás escondido a fazer batota - intromete-se um Diabrelho meu amigo, de quem hei-de falar muitas vezes, mesmo que não tenha tempo para isso neste momento.
Felizmente a minha Senhorinha não o ouviu:
- Mas ser como o Gulliver, o mais alto quando os outros são pigmeus e o mais baixo quando os outros são gigantes, faz com que «alto» e «baixo» dependam das outras coisas que estiverem à volta, quer dizer, do contexto. Não concorda, meu amigo?
Concordei, claro.
Concordo sempre com a minha Senhorinha, mesmo quando o Diabrelho, aqui ao lado me sussurra:
- Podemos sempre fazer como a Alice faz no País das Maravilhas. Umas vezes cresce até ficar com a cabeça por cima das nuvens, outras encolhe para poder entrar na toca dos ratinhos... Miúda esperta. Um dia destes apresento-te.
-
Mas enfim, tudo isto são conversas para outras alturas, ao canto da lareira, por exemplo, para os felizes que a tenham quando o frio aperta.
Mas o tempo que os euritos compram à D. Fernanda vai-se gastando e ainda nem comecei a falar-vos do Primo da minha Senhorinha.
Num momento de particular desânimo, estava ele sentado nos degraus da escada do quintal com a mochila dos livros ao lado, sem se atrever a entrar em casa, e o Sr. Julião a espreitar por cima do muro.
- Pá, hum? Prepara-te, pá. A tua Mãe já descobriu a gaiata que tu tinhas aí escondida.
-
O problema começara logo de manhãzinha, com o Carlinhos - um dia destes vou ter de passar a chamar-lhe Chuck, como ele gosta, mas ainda não me habituei, ele que me perdoe.  Com o Carlinhos, dizia eu, a ter de ir para a Escola e a Magrizela, farta de estar ali fechada, a querer ir com ele.
- Que mal é que faz? - indignava-se ela, sentada no tapete, a devorar as bolachas que o Primo da minha Senhorinha lhe tinha trazido para o pequeno almoço. - Eu deito-me num canto, ao pé de ti e vou ouvindo o teu professor. Ou então durmo.
E não entendia o festival que havia de ser uma sala de aula, cheia a abarrotar de gandulos, e uma garina deitada a um canto e a rosnar de cada vez que alguém se metesse com ela.
Por fim, meia vencida e menos de um terço convencida, amuara e voltara a enfiar-se lá para o fundo, debaixo da cama, de costas voltadas para o Carlinhos.
E foi a pensar nisso que, justamente na aula de História, nomeio da barulheira e com a pobre da Prof a tentar explicar o novo espírito trazido pelas Ordens Mendicantes, que ele contou ao Zé Nesgas o amuo da Magrizela.
- 'Tão, eu não te disse? E vamos fazer o quê? - tinha perguntado o Zé Nesgas depois, enquanto a Prof falava de São Francisco de Assis. - Meu, a gaja não é nenhuma prisioneira.
- Pois não. Prisioneira era ela lá no canil.
- Isso. E não a trouxeste para a prenderes outra vez.
- "Louvado sejas Tu, Senhor, pela nossa irmã, a Terra-Mãe, que nos suporta e nos conduz..." lia a professora, enquanto o Tavares, gritava:
- Hei! Alguém fez o têpêcê de matemática?
- "... e que produz os frutos diversos, com as flores coloridas e a erva..." - continuava ela.
- Chama-se como? - interrompeu, por seu turno o Carlinhos que, apesar de tudo, conseguira ouvir qualquer coisa da Irmã Água, e do Senhor Irmão Sol. 
- O quê, meu Filho?
- Isso do Irmão Sol.
- Está no quadro, Carlos. É o Cântico das Criaturas.
- Ah, obrigado, Stôra. - e passou ao Zé Nesgas, que passou ao Tavares, o caderno de matemática que já vinha lá de trás.
E a conversa ficou por ali.
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- A rapariga, hum, é um bocado desarranjada da cabeça, não é? - dizia entretanto o Sr. Julião. - Trouxeste-a para cá porquê, hum?
Num momento de fraqueza o Carlinhos disparou de um jacto só:
- Ela é uma cadela - foi o Deus dos Cães, está a ver - eu só queria um cão para jogar xadrez e depois o Deus dos Cães transformou-a e ela estava nua - eu não podia deixá-la ali sozinha, com os grandes da Alfredo Arroja, pois não?
Não posso jurar que o vizinho tenha percebido tudo. Mas as pessoas surpreendem, até a mim, que o conheço há tantos anos e que o tenho por um céptico inveterado:
- Parvoíces do Anúbis, hum? - resmungou ele.
- O Sr. Julião conhece-o? - espantou-se o Carlinhos.
- Ah. Mais ou menos. Somos parceiros da sueca uma vez por outra.
E acrescentou peremptório:
- Vá lá! Desanda! Vai lá ver da tua Mãe que deve estar a cortar o cabelo à miúda, antes que ela fique careca.
-
 
 
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quarta-feira, Outubro 09, 2013

Rescaldo das Eleições Autárquicas

 

 
1) Período de reflexão

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2) Cadernos eleitorais
 
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3) As lições da Democracia
 
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Conclusão:
Post coitum omne animal triste est.
Depois das eleições ainda é pior. 
 
 

quarta-feira, Setembro 11, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (Episódio 3)

 
O quartinho onde vivia o Primo da minha Senhorinha, o Carlinhos, eu ainda não disse, mas convém dizê-lo desde já, ficava nas traseiras da pequenina vivenda onde morava com os seus Tios, no Bairro Social de Nossa Senhora dos Anjos.
Não era muito amplo, como não era nenhuma das divisões daquela casa, mas era o quartinho ideal para um menino sonhador se isolar com os seus livros, os seus cadernos e os seus lápis de côr. E, sobretudo, ficava longe do sofá do Pai - que detestava turbulências - como aliás detestava tudo, ou, pelo menos sempre me pareceu.
E, como ficava mesmo ao lado da cozinha, a Mãe achava que o podia manter debaixo de olho.
As razões por que, numa casinha tão pequenina havia um quarto com uma minúscula casa de banho separada do resto dos aposentos, só se compreendem se ainda nos lembrarmos das grandes diferenças sociais que separavam as pessoas pobres das que, dizia-se na altura, eram pelo menos «remediadas».
No projecto dos arquitectos, desenhado lá pelos anos trinta do século passado, o quartinho a que se juntara a casita de banho, era descrito como «quarto da criada».
Os mais jovens dos nossos Leitores já não conheceram essa figura, felizmente desaparecida, da «criada de servir».
Iam-se buscar, lá às aldeias onde tinham nascido, as meninas pobres com doze ou treze anos, às vezes menos ainda, para virem «servir», ou seja, para desempenharem as tarefas domésticas mais pesadas e desagradáveis, esfregar as escadas com escova e sabão amarelo e depois encerar, acartar baldes e sacas de carvão, fazer recados. E, muitas vezes, para apanharem pancada quando, como é natural na idade em que o corpo está tão ocupado a crescer, lhes pendiam os bracitos para a preguiça e os pensamentos para estarem em todo o lado menos onde a patroa mandava.
Mas adiante: esses quartinhos da criada ficavam lá ao lado da cozinha, o mais longe possível da sala onde os patrões ouviam a «telefonia» - só muitos anos depois apareceu a televisão, lembrem-se. E ficavam mesmo junto à escada de serviço para que as rapariguinhas com os cabazes das compras, não entrassem pela mesma porta que os «Senhores».
Era por essa escada que o Carlinhos e a Magrizela entravam e saíam, longe dos olhares vigilantes da Tia da minha Senhorinha - pelo menos quando ela não andava de roda das saladas com que gostaria de fazer perder peso ao marido.
Os bairros, porém, como os nossos leitores bem sabem, sobretudo os pequeninos, de casas baixas, têm muito mais olhos vigilantes para lá dos das Senhoras Mães.
E acontece que, mesmo ao lado dessa escada, começava o muro da casa do Sr. Julião, reformado dos Correios, como já devo ter dito, onde tinha sido desenhador.
Agora tudo se faz no computador. Até mesmo aquelas coisas que dantes exigiam experiências demoradas, simulações com maquetes e por aí fora,  são facilmente substituídas por meia dúzia de equações e uma equipe de programadores competentes.
No seu tempo, o Sr. Julião tinha um estirador, um complicado jogo de réguas e canetas de todas as espessuras e desenhava com uma paciência minuciosa e com as medidas exactas, as peças que os engenheiros pensavam e que, depois, operários que eram verdadeiros artistas, executavam. Era ainda no tempo em que as empresas fabricavam as seus próprios equipamentos. Agora, em tempos globalização, digo eu, compra-se aos americanos e aos alemães que, por sua vez, mandam fazer tudo na Tailândia, transferem os lucros para os Bancos Suíços e estes para as diversas offshore espalhadas pelo mundo.
O Sr. Julião não chegou a ser substituído por um computador que desenhasse melhor e mais depressa do que ele: quando as oficinas dos Correios fecharam e os engenheiros passaram a ser gestores, o Sr. Julião pediu a reforma e veio para casa fazer barcos com paus de fósforos para dar que fazer às mãos enquanto os pensamentos, esses voavam livres como sempre tinham sido. Por onde andavam, só ele sabe e, se tiver de ser, a seu tempo nos dirá.
Mas, se a um pobre sem abrigo como eu, a viver por onde calha, for permitido dar um conselho àqueles dos meus jovens Leitores que têm um temperamento menos competitivo e mais sonhador, recomendo-lhe vivamente, mesmo com o risco de ofender algum Pai mais extremoso: desenhem. Desenhem, desenhem, desenhem, que o desenho liberta ainda mais do que escrever coisas como estas que estão aqui a ler e que, receio bem, só sirvam para nos angustiar.
Mas, onde é que eu ia?
Felizmente a minha Senhorinha nunca se esquece estas coisas de que estávamos a falar do Sr. Julião, e de como ele ia envelhecendo a construir caravelas e outros mais recentes barcos, traineiras, rebocadores e até um grande petroleiro com mais de um metro.
De há muito abandonara ele os paus de fósforo, não sem que eles, pobres pauzinhos, não tivessem contribuído, à sua canhestra maneira, para lançar uma ponte entre as gerações e criar uma sólida amizade entre o Primo da minha Senhorinha e o antigo desenhador dos correios.
Tudo começara, ainda o Carlinhos, com quatro ou cinco anos, nem ia à escola, nem sonhava vir a chamar-se Chuck nem vir a encontrar uma Magrizela.
Costumava ele empoleirar-se num banco, de queixo esticado por cima muro de separação entre os dois quintais, a ver o Sr. Julião, com uma paciência de quem já não quer chegar a lado nenhum, a colar fosforinho a fosforinho, até erguer um mastro, construir uma amurada ou uma chaminé.
E como era lento aquele avanço. O rapazinho ia, esticava-se, espreitava, descia do banco e ia perseguir o gato para o abraçar, o gato fugia, ele voltava ao muro e o barquito ali encalhado por falta de fósforos num costado, o Sr. Julião debruçado sobre uma coisa nenhuma que se visse.
O Carlinhos convenceu-se de que era a falta dos pauzinhos ardidos numa ponta o que assim demorava a obra. E vá de se dirigir à cozinha, arrastar um banco, pôr-lhe outro em cima, trepar para a pedra da chaminé, apoiar-se no fogão e subir para o segundo banco.
A Mãe costumava guardar lá no cimo a reserva das caixas de fósforos, quatro, novinhas em folha, ainda dentro do involucro transparente. Mesmo esticando-se e oscilando perigosamente em cima dos bancos empilhados, as almejadas caixas ficavam muitos centímetros acima dos dedos de Carlinhos. Foi preciso descer, de novo com o apoio do fogão - felizmente apagado - ajoelhar-se em cima da pedra, descer para o chão  e procurar um qualquer coisa que lhe servisse de prolongamento para o braço, voltar a subir e, com a ajuda de uma colher de pau, precipitar lá de cima as caixas que caíram com estrondo sobre a tampa do balde do lixo.
A Mãe, felizmente, andava lá por cima com o aspirador.
Com os fósforos na mão, o Carlinhos marchou outra vez para o quintal, espreitou por cima do muro; do lado de lá, o velho Julião olhou-o por baixo das espessas sobrancelhas e perguntou:
- Hum! Estás de volta?
- A chaminé é muito alta - justificou-se o Carlinhos. e esticou o braço direito bem acima da cabeça.
- Hum-hum. É bom, para não morreres como o João Ratão, cozido e assado no caldeirão.
O Carlinhos achava aquela história parva porque os ratinhos não se aproximavam sequer de uma coisa quente, quanto mais ir um deles mexer no caldeirão, por muito bem que cheirasse.
Não disse nada: à uma, porque já percebera que discutir com os mais velhos é uma perda de tempo; e depois, porque acabara de pensar que os fósforos que trazia da cozinha não iam servir para nada. Tinham uma cabecinha encarnada e os que o Sr. Julião colava ali na bancada o que tinham era a ponta preta.
Um problema a resolver, decidiu ele. E, abrindo o invólucro, tirou um fósforo e riscou-o.
Estava proibido de o fazer e, no instante seguinte, quando as quatro caixas explodiram repentinamente, percebeu por quê.
Os mais jovens dos meus Leitores já se espantaram certamente com o temperamento de um fósforo quando o passamos pela lixa; parece estar para ali, numa soberana indiferença, e de repente, zás! A chama!
Imaginem o que aconteceu com quatro caixas, com cem fósforos cada. Uma enorme labareda subiu pelos ares e, felizmente, tão depressa tinha vindo como se foi e o Carlinhos recuou assustado caindo do banco abaixo.
O Sr. Julião veio resmungar por cima do muro.
- Hum! O rapaz é parvo! Olha lá, aleijaste-te, hum?
Sentado no chão, com os óculos pendurados só de uma orelha e um cheiro intenso a cabelos queimados, o Carlinhos olhava para aquilo tudo sem perceber bem o que lhe tinha acontecido.
- Estás bem, tu, hum? - insistia o Sr. Julião sem saber se os seus velhos anos e o reumático nas articulações lhe deixariam saltar o muro.
- 'Tou. - respondeu o Priminho da minha Senhorinha sem ter muito a certeza.
Depois endireitou os óculos e levantou-se para agarrar as caixas chamuscadas e ainda quentes.
- Toma. - disse ele e estendeu-as na direção do muro.
- Para mim, hum? Hum... ah. Obrigado.
E o que se seguiu, perdoarão as gentis Leitoras e os Cavalheiros, mas tem de ficar para a próxima vez, que a D. Fernanda quer fechar a loja e eu quero tudo, menos que ela se zangue comigo.
 

quarta-feira, Setembro 04, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO (segundo episódio)

Nesse dia, tenho de o dizer, o Zé Nesgas perdeu a paciência e desatou aos berros.
Não é que a voz dele, fininha como era, fosse impressionante, sobretudo porque vinha lá de baixo do seu palmo e a terça de altura (ou, talvez devesse dizer, de «baixura» se não fosse parecer que estava a ser sarcástico, o que não é, de todo, a minha intenção. A minha Senhorinha que me conhece, poderia ser nisso a minha fiadora, se não me repugnasse ser a causa de mais esse incómodo).
Bom, mas perguntam as gentis Leitoras, o que gritou então esse tal Zé Coiso? E eu reparo que têm toda a razão e acabei por não o dizer.
O autoritário brado foi simples:
- Man, isto tem de acabar! - e alteando a voz: - Tem de acabar, man, isto assim não é coisa nenhuma!
E não era, mesmo descontando que eu omiti alguns vocábulos, digamos, menos elegantes na fala do colérico rapazinho.
De facto, a Magrizela andava a acordar, lá ao fundo, debaixo da cama, com um humor de cão, o que, diga-se, não é de todo de estranhar.
Mas, perdoem-me que intercale aqui um aviso e um pedido de desculpas.
As Gentis Leitoras e os Cavalheiros que me estão a ler já protestaram, certamente,  contra esta entrada de chofre, tipo a pés juntos, na história do Carlinhos e dos seus amigos. Mas verão que era absolutamente necessária.
A minha Senhorinha conhece bem a tendência que eu tenho para andar por aí a «dar água sem caneco», uma expressão muito antiga, bem ao jeito da Senhora sua Tia. Mesmo tendo nascido na pequena vivenda do bairro de Nossa Senhora dos Anjos, como já devemos ter dito, a Mãe do seu Primo Carlinhos, tem uma forte costela rural; as suas opiniões, por vezes bem contundentes, exprimem-se quase sempre por provérbios, por expressões do tipo «nem sol na eira nem chuva no nabal» a propósito dos nossos governantes, e tantas outras que seria inútil tentar dizê-las a todas.
Mas reparo que, ainda antes de explicar porque é que a Magrizela acordava todos os dias com o tal humor de cão, talvez devesse dizer, mesmo se brevemente, o que é um «caneco», esse sem o qual tanta gente anda por aí a fingir que dá a água.
Hoje em dia, os que ainda por aí andam já são de plástico.
Dantes, porém, os canecos eram feitos de madeira, do mesmo modo como ainda se fazem as pipas para o vinho: as peças de castanheiro ou de carvalho, chamadas aduelas, eram encurvadas ao fogo e apertadas com arcos de ferro. Tinham uma pega cá em cima e, muitas vezes outra mais em baixo, do lado oposto. Levavam para aí uns vinte litros de vinho ou de água e acartavam-se às costas, o que não era pêra doce para ninguém.

 
Também eu, quando perdi o emprego, já lá vão muitos anos como a minha Senhorinha sabe, entre outros biscates, andei nas vindimas e acartei muitos deles ao ombro. Palavra que também eu preferiria andar a dar a tal água sem caneco nenhum.
Mas vejo que me afastei do assunto que, afinal, aqui nos trazia a todos.
Desde que chegara a casa, trazida à corda pelo Carlinhos, a Magrizela recusara-se a dormir num colchão macio, com almofada e lençóis.
Onde ela gostava de se enfiar era debaixo da cama do Primo da minha Senhorinha, lá bem ao fundo, enrolada num tapete.
Durante os primeiros tempos até dava jeito. A Mãe do Carlinhos podia entrar e sair, sem dar pela Magrizela que tinha bem a noção da estranheza daquilo tudo e, lá de baixo, rosnava tão baixinho quanto podia. Só havia um problema, mas esse, acredito, era bem mais embaraçoso.
A minha Senhorinha conhece o seu jovem Primo: tímido e contemplativo, com uma mais do que parca experiência das coisas do mundo. Como conseguia ele convencer a Magrizela quando, a meio da noite ela acordava e se dirigia para a porta decidida a ir para o quintal fazer... como direi? os necessários?
Bem tentava ele encaminhá-la para a casa de banho. Porém, para a Magrizela que até essa altura poucos dias passara debaixo de telha, uma sanita tinha sido apenas um sítio onde beber água quando os donos se esqueciam da tijela.
Felizmente, o Zé Nesgas tinha, em capítulos desses, alguma experiência.
Era o terceiro de uma irmandade de quatro em que tinha o azar de ser o único rapaz.
A minha Senhorinha, sendo filha única, não tem bem a noção de quanto duas irmãs mais velhas, sempre em segredinhos e risadinhas, podem ser cruéis para os irmãos mais novos.
O Zé Nesgas teve de tomar a defesa da mais pequenina e, no fundo, coube-lhe a ele a tarefa, nem sempre gratificante, de evitar que ela se ferisse com as tesouras que as mais velhas deixavam por ali depois de cortar as unhas, que caísse das escadas abaixo quando as outras deixavam a porta da rua aberta, de acudir quando a pequenita batia com a cabeça numa esquina e desatava num berreiro.
E frequentes vezes, quando ela abandonou as fraldas, a acompanhou ao bacio e a amparou na casa de banho para que ela não se enfiasse pela sanita abaixo.
Mas as gentis Leitoras e os Cavalheiros que nos lerem terão de me perdoar se eu entrar agora em pormenores que não constam normalmente em narrativas que possam ser lidas por crianças.
É consensual que, até esses dezoito anos, julgo eu, embora possa estar em erro - quem sou eu para discutir pedagogias e regras de boa e saudável educação? - é consensual, dizia eu então, que um jovenzinho possa matar marcianos, árabes ou chineses, bem como outros monstros variados, num videojogo. Mas nada de falar em xixis e cocós: as senhoras nos romances nunca estão com o período nem têm prisão de ventre.
E, se os Leitores ainda se lembram da gritaria que ia lá pelo quarto do Carlinhos, com o Zé Nesgas aos berros (desta vez sem omitir vocábulos:) «man, isto assim é uma merda, porra!», não ficarão admirados se eu lhes recordar que ajudar uma irmãzita de três ou quatro anos a ir à retrete e depois a lavar-se, não é exactamente a mesma coisa quando se tem doze anos e a rapariguita que se está ajudar tem catorze.
Como a D. Fernanda, que é a encarregada aqui da loja, já me veio dizer «tenho pena, mas olhe que já passa meia hora...» eu acrescento só mais uma coisinha:
A Magrizela, sem dar minimamente por isso, note-se, estava a causar uma perturbação desusada nas hormonas daqueles dois cachopos.
E eles, a falar francamente, não faziam ideia de como enfrentar a situação.


 
 

sexta-feira, Agosto 30, 2013

BOM DIA E UM QUEIJO

 

Bom Dia e um queijo é a narrativa cheia de peripécias das aventuras - e algumas desventuras - do Carlinhos - que também gosta de se chamar Chuck - da Magrizela e do Zé Nesgas, onde, se tivermos sorte, hão-de aparecer um ou dois Diabrelhos e várias outras figuras que, por serem invulgares, não são menos verdadeiras.
Tudo narrado fielmente por este que se assina
Alberto Tacci
(ou outro nome qualquer)
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A minha Senhorinha lembra-se, certamente, dos nossos últimos encontros e do que então conversámos sobre o seu Primo Carlinhos.
Já lá vai algum tempo, mas, por essas alturas, comentámos, não sem alguma inquietação, o facto de que o jovem sonhador, alto e gorducho como era, estar a abandonar rapidamente a meninice e a entrar decidido pela adolescência.
Efeitos, receávamos, da presença da Magrizela lá em casa.
A minha Senhorinha conhece perfeitamente a pequena moradia - com um jardinzinho à frente e um pequeno pátio nas traseiras - onde a Senhora sua Tia, a Mãe do Carlinhos, sempre viveu.
Perdoará, no entanto, que eu junte aqui uma breve descrição do Bairro Social de Nossa Senhora dos Anjos, para dar a conhecer aos demais leitores que gentilmente nos acompanham, o lugar onde cresceu o seu Primo. E, de caminho, explicar - se explicação tiver - como foi possível, durante este tempo todo, que ninguém estranhasse a presença da clandestina Magrizela a pavonear-se por todo o lado na companhia do Carlinhos e do seu colega de turma e de há muito inseparável amigo, o Zé Nesgas.
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O Bairro tinha sido planeado para se estender pela encosta abaixo, ter um jardim com um ringue de hóquei em patins e uma Igreja, e albergar com a devida decência e muito respeitinho, como era antigamente, duzentas famílias de militares de baixa patente, um ou outro chefe de polícia, funcionários da Câmara Municipal e empregados de comércio selecionados. E havia de ter também um pequeno miradouro com um busto do Sr. Ministro das Obras Públicas e banquinhos onde os mais idosos se iriam sentar à conversa e regalar-se a plenos pulmões com a magnífica vista sobre o rio.
Era uma coisa bonita.
Houve uma cerimónia solene para lançar a primeira pedra, com ministros e presidentes, uns quantos legionários da Legião Portuguesa, as criancinhas da Escola Primária mais próxima e uma menina vestida de organdi com um ramo de flores e um laço azul na cabeça.
Porém - e a minha Senhorinha já sabe como são estes «poréns», acaba sempre por haver meia dúzia - ainda o empreendimento não tinha passado do papel e a menina do laço azul ainda não tinha tropeçado e espalhado as flores pelo chão e já se dizia à boca pequena que alguém se tinha abotoado com as verbas.
Houve ajustes daqui e dali, roubou-se uma dezena de metros quadrados a cada quintalinho, um metro na largura da ruas e mais meio metro nos passeios que ficavam só um bocadinho mais estreitos.
Das duzentas vivendas construíram-se trinta e nove, agrupadas em seis pequeninos quarteirões e com seis casinhas cada um, e mais meio que, não se sabe porquê, ficou só com três - um nadinha maiores, é verdade, e com uma garagem atrás onde não sei se caberia um carro maior do que um Fiat Topolino - ou vá lá, para termos uma comparação mais dos nossos dias, um Smart ou um Citroën C-1.
Foi uma destas três que os Avós do Carlinhos e da minha Senhorinha adquiriram com algum sacrifício, diga-se, e que deixaram à filha mais nova quando se reformaram e foram para a terra, lá para os lados de Ponte de Lima ou dos Arcos de Valdevez.
Os terrenos previstos para a dita Igreja e para o jardim foram loteados e vendidos para fazer prédios e, como se diz agora, para se realizarem umas mais-valias que segurassem o descalabro nas contas do Município. O miradouro, esse ficou com uma bonita vista para as traseiras dos prédios onde as vizinhas dos segundos andares estendem a roupa.
Quando se puseram, finalmente, os candeeiros da iluminação pública, verificou-se que os estreitados passeios não davam para passar um carrinho de bebé, quanto mais uma cadeira de rodas.
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Mas então, reclamam as Gentis Leitoras e os Benevolentes Cavalheiros, Meninas e Meninos que vinham cheios de curiosidade: então e o Carlinhos? E a Magrizela? Não era disso que se tratava e das aventuras deles e do Zé Nesgas?
Só posso pedir-lhes um pouco de paciência porque, arrumadas estas considerações - e se outras não vierem, aviso desde já, porque eu não sou de fiar como a minha Senhorinha tão bem sabe - iremos pé ante pé surpreender o nosso Carlinhos no quintal do Sr. Julião, reformado dos Correios que faz naus e caravelas com pauzinhos de fósforo.
Mas o que ele lá estava a fazer terá de ficar para depois, porque, confesso: já estou a ficar muito cansado e mal distingo as teclas em que vou aqui martelando.
Mas hei-de voltar, tão depressa quanto arranjar três euritos, que é quanto custa aqui nesta loja, o aluguer de um computador e da ligação à internet durante umas horas.
Prometo. 
 


segunda-feira, Agosto 12, 2013

Os dias de Catarina

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- Pai! Já alguém tinha feito um falso almanaque do Borda d'Água?

sábado, Agosto 10, 2013

Os dias de Catarina

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- Porque é que as cotas ficam assim bonitas quando cantam todas juntas?

segunda-feira, Julho 22, 2013

Leão Tolstoi

"Não foram, no entanto, os dogmas o que levantaram entre ele e a Igreja um muro intransponível, mas sim as questões práticas, - sobretudo duas: a intolerância raivosa e mútua das Igrejas, e a sanção, formal ou tácita, dada ao homicídio, - a guerra e a pena de morte."
Romain Rolland, Vie de Tolstoï, 1921.

quarta-feira, Julho 17, 2013

Os dias de Catarina (dois)

- Ensinaram-me a ler em três anos. Mas, se tiver de entender isto tudo, quando é que eu vou brincar?